eu não
sexta-feira, 25 de março de 2011
Vamos escrever um clássico hoje, ela perguntou, quando chegarmos em casa? Ninguém lê os novos, pois não são clássicos. Ninguém lê os clássicos. Imagine a voz de Caetano Veloso ao ler. Isso aqui ou qualquer outro pensamento seu? Isso é clássico de se pensar. Caetano lê todas as sílabas, por isso, talvez, não sei ao certo – mas ninguém lê assim. Caetano lê assim, todas as síladas em aberto, articuladas solenemente, assim como Ray poderia lê-las, com um tom de zeus – e ele inverte as tônicas, ele pode porque é baiano. Ele pode invertê-las porque ele as molda todas quando pronuncia as sílabas, ele lê livros? Ele lê os novos livros? Quem lê os novos senão aqueles que os escrevem, ela perguntou. Ele não sabe te responder, respondeu. Clássicos são para nos fazer parar de escrever, insinuou. Parar de viver, completou ele. Parar perdeu o acento, Pedro. Sabes, perguntou ela. E agora, ninguém mais pára? Só para. Caetano pronunciaria o acento de pára, questiona. Transformaria ele pára em Pará? Mas que estupidez, me dá um beijo.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
– Raios... Raios, Bob. Tem uma velha me espiando com um olho só.
– Droga, Ana, tá atrapalhando a minha monografia...
A velha estava de pé logo atrás de Ana, vestida com um conjunto de estampa padrão em formatos angulares rosa e verde.
– Tive que ligar, Bob. Eu tava na rua... e vi, vi um moço no telefone, assim, sentado no banco da praça – quem faz uma coisa dessas hoje em dia, afinal? Ah, Bob, por essa você certamente não esperava, não da sua monografia...
– Ora, Ana... veja lá se...
– tive, como obrigação, que ir até lá perto para olhar, é tão incomum uma pessoa dessas, diferentemente desta velha vestida de arroz a grega aqui atrás... Bob, que horror, ela realmente me olha com um só olho, como um gato mexendo uma orelha só. Raios, por que estou falando da velha? Bob, tive que me aproximar do homem... mas de forma a me desaparecer como um cachorro de rua, como uma bituca de cigarro, sim?... um poste ou um hidrante
– Ana, pelo amor de deus, não comece a...
– hidrantes andam desaparecendo por aí, pois que me tentei passar por um e não fui muito convincente – mas convincente? Veja, o homem sentado num banco de praça ao telefone, isso lá é convincente? Desbravando sua vida íntima com tsunamis sonoros que podia se ouvir do metrô abaixo do chão, Bob, te juro. Pois bem, instalei-me como um hidrante a poucos passos do senhor que falava articulando generosamente a mandíbula – certamente chamava mais atenção que um hidrante, Bob. Bob, sabe o que ele falava?
– Dos ataques políticos de ontem, Ana...
– Não, Bob, não... dos infartos incrédulos do coração. Incrível, não? Um homem sentado num banco de uma praça a falar com a amante, certamente uma estudante estrangeira chamada Maria, que veio da Irlanda fugida, para estudar sociologia na América do Sul...
– Sim, pois a sociologia do hemisfério sul é outra, no melhor dos casos, outra.
– com aquelas roupas de quem sente um calor intransponível, coisas de pedaços de pano, enrolados e coloridos, sabe, Bob? Coisas de tranças e miçangas e música ralentada. Ele falava com Maria, dos infartos generosos que tinha por ela, ali, no banco da praça. E eu ouvia tudo. Sem dúvida passei-me bem por hidrante por alguns minutos – uma nova habilidade que descobri e agora me vejo pressionada a desenvolver, merda... mais uma, Bob. Mas, enfim, o homem olhava para cima e falava com uma boca larga a respeito de uma fisiologia muito própria, à la Moraes, falava das mãos dela – muito grandes, coisa de nórdicos, Bob, já reparou? Umas mãos largas como a boca do homem.
– Este homem verdadeiramente não anda muito vaidoso, para estar assim ancorado no meio da cidade a falar dos próprios órgaõs...
– De certo não, Bob. Ele estava tão embasbacado que ficou fácil para minha transparência de hidrante. O fato é que, em dado momento, Bob, isto foi realmente formidável, ele disse: Não, minha querida, não entende nada do que falo?
– Ela não compreendia português? Pobre coitado do homem de carências de serenata, mais uma prova do absurdo dos prédios de hoje, tão altos...
– Pois é, fiquei intrigada, intrigada mesmo com aquele homem, com um cigarro aceso na mão a fazer demonstração de toda sua carência, porém tão impotente com as palavras, meu deus, as palavras! Bob, preciso aprender irlandês... que língua ele falam na Irlanda, Bob?
– Inglês.
– Bob, isto é muito importante, muito necessário que eu aprenda a língua de Maria. A língua de todos os lugares do mundo! Não posso passar-me, além de hidrante, por impotente como Marcos... pobre homem.. apaixonado e sem palavras...
– Você sabe inglês, Ana. Aff, o que importa? Vai servir de pombo correio? Estas tuas fantasias estão cada vez piores, Amélia...
Ana ri. Depois gargalha.
– Pombo correio, Bob... mas que brilhante idéia a sua...!
– O nome do homem é Marcos? Você falou com o rapaz?
– Depois diz que são minhas fantasias, pois eu ligo ingenuamente para você a fim de contar minha aventura de hoje, e você me vem com pombos correios... você é demasiadamente nostálgico, Bob, mas que figura...
– Ah, não me venha com essa agora! Duvido que não pensou em se tornar um elo entre Marcos e sua estrangeira colorida, ora Ana, como se pombo correio não fosse somente uma maneira de falar, uma metáfora!
– Marcos é um bom homem, não seria mal se conseguisse fazê-los se comunicarem, sabe? Você e seus preconceitos... acho que vou lá prestar ajuda.
– Eu sei que você não me ouve, eu não sei porque eu falo.. Mas não acho uma boa idéia você ir se atirando a um homem suspeito que senta em praças, não é uma atitude...
– Oh, Bob, preciso ir. A velha está para me matar... não sabia que ainda haviam pessoas que sentavam em praças ou usavam telefones públicos... veja só, e aqui está a velha, que claramente há de ter um telefone em casa e fica a me encarar como uma criminosa tramando o escape do próximo traficante de Bangu...
– Você tem um telefone em casa...
– Tchau Bob, amanhã nos falamos... a velha acabou de bater com um relógio de bolso no orelhão! Mas este dia só me rende surpresas: Bob, acho que você não é tão nostálgico como acreditava ser... relógio de bolso! Veja só. Meu deus, capaz de me ver morta nos jornais de amanhã se não correr, Bob, adeuzinho. Até amanhã!
– Ana Amélia, ah, como eu aguento! Você não vinha para cá hoje mais tarde? Marcamos de comemorar o meu aniversário hoje... Ana!
– Droga, Ana, tá atrapalhando a minha monografia...
A velha estava de pé logo atrás de Ana, vestida com um conjunto de estampa padrão em formatos angulares rosa e verde.
– Tive que ligar, Bob. Eu tava na rua... e vi, vi um moço no telefone, assim, sentado no banco da praça – quem faz uma coisa dessas hoje em dia, afinal? Ah, Bob, por essa você certamente não esperava, não da sua monografia...
– Ora, Ana... veja lá se...
– tive, como obrigação, que ir até lá perto para olhar, é tão incomum uma pessoa dessas, diferentemente desta velha vestida de arroz a grega aqui atrás... Bob, que horror, ela realmente me olha com um só olho, como um gato mexendo uma orelha só. Raios, por que estou falando da velha? Bob, tive que me aproximar do homem... mas de forma a me desaparecer como um cachorro de rua, como uma bituca de cigarro, sim?... um poste ou um hidrante
– Ana, pelo amor de deus, não comece a...
– hidrantes andam desaparecendo por aí, pois que me tentei passar por um e não fui muito convincente – mas convincente? Veja, o homem sentado num banco de praça ao telefone, isso lá é convincente? Desbravando sua vida íntima com tsunamis sonoros que podia se ouvir do metrô abaixo do chão, Bob, te juro. Pois bem, instalei-me como um hidrante a poucos passos do senhor que falava articulando generosamente a mandíbula – certamente chamava mais atenção que um hidrante, Bob. Bob, sabe o que ele falava?
– Dos ataques políticos de ontem, Ana...
– Não, Bob, não... dos infartos incrédulos do coração. Incrível, não? Um homem sentado num banco de uma praça a falar com a amante, certamente uma estudante estrangeira chamada Maria, que veio da Irlanda fugida, para estudar sociologia na América do Sul...
– Sim, pois a sociologia do hemisfério sul é outra, no melhor dos casos, outra.
– com aquelas roupas de quem sente um calor intransponível, coisas de pedaços de pano, enrolados e coloridos, sabe, Bob? Coisas de tranças e miçangas e música ralentada. Ele falava com Maria, dos infartos generosos que tinha por ela, ali, no banco da praça. E eu ouvia tudo. Sem dúvida passei-me bem por hidrante por alguns minutos – uma nova habilidade que descobri e agora me vejo pressionada a desenvolver, merda... mais uma, Bob. Mas, enfim, o homem olhava para cima e falava com uma boca larga a respeito de uma fisiologia muito própria, à la Moraes, falava das mãos dela – muito grandes, coisa de nórdicos, Bob, já reparou? Umas mãos largas como a boca do homem.
– Este homem verdadeiramente não anda muito vaidoso, para estar assim ancorado no meio da cidade a falar dos próprios órgaõs...
– De certo não, Bob. Ele estava tão embasbacado que ficou fácil para minha transparência de hidrante. O fato é que, em dado momento, Bob, isto foi realmente formidável, ele disse: Não, minha querida, não entende nada do que falo?
– Ela não compreendia português? Pobre coitado do homem de carências de serenata, mais uma prova do absurdo dos prédios de hoje, tão altos...
– Pois é, fiquei intrigada, intrigada mesmo com aquele homem, com um cigarro aceso na mão a fazer demonstração de toda sua carência, porém tão impotente com as palavras, meu deus, as palavras! Bob, preciso aprender irlandês... que língua ele falam na Irlanda, Bob?
– Inglês.
– Bob, isto é muito importante, muito necessário que eu aprenda a língua de Maria. A língua de todos os lugares do mundo! Não posso passar-me, além de hidrante, por impotente como Marcos... pobre homem.. apaixonado e sem palavras...
– Você sabe inglês, Ana. Aff, o que importa? Vai servir de pombo correio? Estas tuas fantasias estão cada vez piores, Amélia...
Ana ri. Depois gargalha.
– Pombo correio, Bob... mas que brilhante idéia a sua...!
– O nome do homem é Marcos? Você falou com o rapaz?
– Depois diz que são minhas fantasias, pois eu ligo ingenuamente para você a fim de contar minha aventura de hoje, e você me vem com pombos correios... você é demasiadamente nostálgico, Bob, mas que figura...
– Ah, não me venha com essa agora! Duvido que não pensou em se tornar um elo entre Marcos e sua estrangeira colorida, ora Ana, como se pombo correio não fosse somente uma maneira de falar, uma metáfora!
– Marcos é um bom homem, não seria mal se conseguisse fazê-los se comunicarem, sabe? Você e seus preconceitos... acho que vou lá prestar ajuda.
– Eu sei que você não me ouve, eu não sei porque eu falo.. Mas não acho uma boa idéia você ir se atirando a um homem suspeito que senta em praças, não é uma atitude...
– Oh, Bob, preciso ir. A velha está para me matar... não sabia que ainda haviam pessoas que sentavam em praças ou usavam telefones públicos... veja só, e aqui está a velha, que claramente há de ter um telefone em casa e fica a me encarar como uma criminosa tramando o escape do próximo traficante de Bangu...
– Você tem um telefone em casa...
– Tchau Bob, amanhã nos falamos... a velha acabou de bater com um relógio de bolso no orelhão! Mas este dia só me rende surpresas: Bob, acho que você não é tão nostálgico como acreditava ser... relógio de bolso! Veja só. Meu deus, capaz de me ver morta nos jornais de amanhã se não correr, Bob, adeuzinho. Até amanhã!
– Ana Amélia, ah, como eu aguento! Você não vinha para cá hoje mais tarde? Marcamos de comemorar o meu aniversário hoje... Ana!
terça-feira, 10 de agosto de 2010
pula a bula
Nas (não mais) surpreendentes vezes em que me pego sem vocabulário para dizer-te o apego – talvez melhor seria o Amor – é, então, com impropérios que dirijo minha palavra, a mim e a ti. Não mais que usuais, estas situações – que tornam-se já crônicas – atacam-me os nervos e o coração. Eu queria dizer-te palavras fortes, só me vêm as expressões gastas – como bem anunciam: o amor torna-nos iguais – fáceis, rotas. Ai que um dia, tinha a certeza, iria me sentar e escrever um tratado magnífico dos sentimentos (do este sentimento que tenho por ti e tantos outros acionados conjuntamente). Vejo-me incapaz de dizer três palavras que ainda não tenhas ouvido (quiçá de minha boca).
É que isto é de fato uma doença, atacada por uma grave outra – das palavras fáceis. É a febre quem mata o pensamento. E quanto pensamento tenho, e quanto mais eu tento, povoam-me a cabeça as maldições românticas (aquelas mesmas destinadas ao fracasso, aquelas que quero sempre fugir, os passos do herói...). Tenha piedade de mim, quebrei o espelho praticando, quebrei os dentes mastigando as letras... Mas isso me corrompe aos mais ordinários seres em mim – e lá vou eu a recitar Pessoa, meu deus, Vinicius! – tenha piedade, eles são muitos aqui dentro. Lá vou eu catando as palavras que sobram dos outros, e sonhando com serestas...
Se eu te chamo de pássaro é porque te cabe mais que querido. É para ti mais útil ser pássaro do que um mero querido, também, veja. Talvez fosse parte dos impropérios te ter com asa, quem sabe. Acabo me afeiçoando a eles... Dizem que a mente como a minha, a falta de conjunções nas frases, é isso de faltar vitaminas. Quase que faço um exame que aponta a fictícia falta de B1. Penso que poderia ser a causa da fraqueza muscular (os joelhos tremidos, o coração franzino) – sem contar os pulmões apertados. E não é que é um tal de um irônico fungo, uma sarcástica toxina, alguma outra safa enzima que certos espirituosos peixes levam, que
Olha, quantos quilos pesa uma letra, para caber num músculo daquele? Dos meus cinquenta quilos descabelados, certo é que trinta são as palavras que me faltam, vinte são você.
Mas que doença é esta: meu coração rói com som de cenoura. Todo e qualquer impulso morre na palma da sua mão. Ataca o corpo, neste ínterim, o coração (já beijastes o joelho da tua amada, algum dia? É preciso fazê-lo – li num livro) Cato agora uma palavra, expressão para esta calamidade que causas ao universo. Existe uma que mora... nos vocabulários alheios, nos profissionais, nas metonímias e amálgamas cerebrais dos enamorados.
Na medicina fria e pathológica,
é, és tu meu beribéri cardíaco.
É que isto é de fato uma doença, atacada por uma grave outra – das palavras fáceis. É a febre quem mata o pensamento. E quanto pensamento tenho, e quanto mais eu tento, povoam-me a cabeça as maldições românticas (aquelas mesmas destinadas ao fracasso, aquelas que quero sempre fugir, os passos do herói...). Tenha piedade de mim, quebrei o espelho praticando, quebrei os dentes mastigando as letras... Mas isso me corrompe aos mais ordinários seres em mim – e lá vou eu a recitar Pessoa, meu deus, Vinicius! – tenha piedade, eles são muitos aqui dentro. Lá vou eu catando as palavras que sobram dos outros, e sonhando com serestas...
Se eu te chamo de pássaro é porque te cabe mais que querido. É para ti mais útil ser pássaro do que um mero querido, também, veja. Talvez fosse parte dos impropérios te ter com asa, quem sabe. Acabo me afeiçoando a eles... Dizem que a mente como a minha, a falta de conjunções nas frases, é isso de faltar vitaminas. Quase que faço um exame que aponta a fictícia falta de B1. Penso que poderia ser a causa da fraqueza muscular (os joelhos tremidos, o coração franzino) – sem contar os pulmões apertados. E não é que é um tal de um irônico fungo, uma sarcástica toxina, alguma outra safa enzima que certos espirituosos peixes levam, que
Olha, quantos quilos pesa uma letra, para caber num músculo daquele? Dos meus cinquenta quilos descabelados, certo é que trinta são as palavras que me faltam, vinte são você.
Mas que doença é esta: meu coração rói com som de cenoura. Todo e qualquer impulso morre na palma da sua mão. Ataca o corpo, neste ínterim, o coração (já beijastes o joelho da tua amada, algum dia? É preciso fazê-lo – li num livro) Cato agora uma palavra, expressão para esta calamidade que causas ao universo. Existe uma que mora... nos vocabulários alheios, nos profissionais, nas metonímias e amálgamas cerebrais dos enamorados.
Na medicina fria e pathológica,
é, és tu meu beribéri cardíaco.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Papeles Inesperados
Creio que a última vez que alguém se aproximou de mim e questionou-me sobre minha vida (não apóio – com ou sem acento – o fazer sem devida intimidade) já faz alguns anos. Seria isto grave, gravíssimo? Quantos pontos na habilitação?
Adriana Calcanhoto anda me emocionando e não vejo nisto bom sinal. As conversas ultimamente têm pairado sobre a existência alheia, quando não sobre coisas supérfluas como objetos, produtos humanos, credulidade, fé, arte (já não curto mais falar sobre cinema). As palavras que aparecem atormentam-me.
Há um mês tento falar sobre mim. Assunto prioritário (e que assim seja) na vida dos demais que nos rodeiam. Fracassei todas as vezes. As poucas que tentei, admito. Então questionei-me (oras, se ninguém o faz) se a culpa poderia ser minha (mea culpa, anoto post-it para amanhã). Foram poucas as vezes em que eu me tirei do alvo e lavei as mãos – esta, eu portanto incluo: ai, não sou eu.
Que fazer se tangenciam meu ego sum e desviam-no para suas próprias fronteiras...
Se importuno tanto tua sobrevivência, caro Amigo, orai por mim. É que não cresci falando (sabe-se lá quando comecei esta atividade castradora) – costumo preferir a sonolência. Mas eis que depois de meus cálculos maltrapilhos concluo um vagar de dois anos a viver desprendida de minha consciência social. Não sei, mas creio ser peligroso toda esta marginalidade. Estes dois anos ponho na minha conta, pago eu (o último mês, somente, passo adiante). Hei de tornar-me problema para alguém que não eu algum dia?
Caro Amigo, terei eu que escrever-te uma carta, para que tomes tempo a lê-la (já que para a escrita demoramo-nos com um vazio pesado) e então irá me chamar? Há um mês, sabes... que tento desentranhar minhas angústias c'outrém. O que ouço são grunhidos de apelo: não, por favor, não!
Caro Amigo, não pretendo lhe tirar seu título ou diminuir tua imponência – no entanto, mesmo quando se aproxima e demonstra interesse, é distraidamente colado ao ponteiro do relógio (céus, é de fato uma tortura). Entenda, ouvir falar de tuas vidas é algo de extrema acidez, deveras investigativo, coisa que aprecio... Verdade, jamais falsifiquei meus interesses (não até hoje, prometo) e detenho-me em detalhes, instigo e os comento porque nestes que eu vivo. Porém, não te ofendas se não te encaixas no perfil do Amigo (às vezes nos enganamos, quem avisa Amigo é).
Agora não sei se continuo nas savanas ou procuro uma opção desavergonhadamente burocrática. Um psicólogo (eu sei que seria já uma antiga dica sua, caríssimo) a quem relutarei em escrever, mas pagarei a conta, desta vez, mês a mês, oficialmente. Serei clinicamente testada às minúcias de meu monólogo (monólogos são tão entediantes...) e prostrarei numa poltrona macia a determinar todos os assuntos (eu, jamais cinema). Segue-se a esta, a opção esotérica (ainda assim paga) de jogar minha vida nas conchas ou nas estrelas, cheirando a incenso, pra ver o que estes objetos me dizem – mas não é que sempre temi chegar ao ponto de conversar com as coisas?...
Caro Amigo, em linhas escritas, flagro-me: não me detenho a falar com este papel? (orai que ele responda, orai.)
Adriana Calcanhoto anda me emocionando e não vejo nisto bom sinal. As conversas ultimamente têm pairado sobre a existência alheia, quando não sobre coisas supérfluas como objetos, produtos humanos, credulidade, fé, arte (já não curto mais falar sobre cinema). As palavras que aparecem atormentam-me.
Há um mês tento falar sobre mim. Assunto prioritário (e que assim seja) na vida dos demais que nos rodeiam. Fracassei todas as vezes. As poucas que tentei, admito. Então questionei-me (oras, se ninguém o faz) se a culpa poderia ser minha (mea culpa, anoto post-it para amanhã). Foram poucas as vezes em que eu me tirei do alvo e lavei as mãos – esta, eu portanto incluo: ai, não sou eu.
Que fazer se tangenciam meu ego sum e desviam-no para suas próprias fronteiras...
Se importuno tanto tua sobrevivência, caro Amigo, orai por mim. É que não cresci falando (sabe-se lá quando comecei esta atividade castradora) – costumo preferir a sonolência. Mas eis que depois de meus cálculos maltrapilhos concluo um vagar de dois anos a viver desprendida de minha consciência social. Não sei, mas creio ser peligroso toda esta marginalidade. Estes dois anos ponho na minha conta, pago eu (o último mês, somente, passo adiante). Hei de tornar-me problema para alguém que não eu algum dia?
Caro Amigo, terei eu que escrever-te uma carta, para que tomes tempo a lê-la (já que para a escrita demoramo-nos com um vazio pesado) e então irá me chamar? Há um mês, sabes... que tento desentranhar minhas angústias c'outrém. O que ouço são grunhidos de apelo: não, por favor, não!
Caro Amigo, não pretendo lhe tirar seu título ou diminuir tua imponência – no entanto, mesmo quando se aproxima e demonstra interesse, é distraidamente colado ao ponteiro do relógio (céus, é de fato uma tortura). Entenda, ouvir falar de tuas vidas é algo de extrema acidez, deveras investigativo, coisa que aprecio... Verdade, jamais falsifiquei meus interesses (não até hoje, prometo) e detenho-me em detalhes, instigo e os comento porque nestes que eu vivo. Porém, não te ofendas se não te encaixas no perfil do Amigo (às vezes nos enganamos, quem avisa Amigo é).
Agora não sei se continuo nas savanas ou procuro uma opção desavergonhadamente burocrática. Um psicólogo (eu sei que seria já uma antiga dica sua, caríssimo) a quem relutarei em escrever, mas pagarei a conta, desta vez, mês a mês, oficialmente. Serei clinicamente testada às minúcias de meu monólogo (monólogos são tão entediantes...) e prostrarei numa poltrona macia a determinar todos os assuntos (eu, jamais cinema). Segue-se a esta, a opção esotérica (ainda assim paga) de jogar minha vida nas conchas ou nas estrelas, cheirando a incenso, pra ver o que estes objetos me dizem – mas não é que sempre temi chegar ao ponto de conversar com as coisas?...
Caro Amigo, em linhas escritas, flagro-me: não me detenho a falar com este papel? (orai que ele responda, orai.)
sexta-feira, 16 de julho de 2010
o que me ultrapassa
Me pediu sem nunca pedir, os versos que te digam. Eis que me ponho a anotar motivos e descrever métodos e sublinhar gestos que me consolam e resultam na sua existência. A função matemática que calcula a sua pessoa em mim. Mas não os porei aqui, agora. Nunca fui apta a cálculos, culpo a caneta destes descobrimentos. No fim, podem ter sido as palavras as criadoras desta toda bolha que me visualizo dentro - incluí você sem licença; a equação matemática dos sentimentos, perdão, x-3y+y-x/5 é uma explicação chula pro que seria o motivo disto tudo e de você.
Eu sei que em algum momento, de um futuro tão próximo que não enxergo lonjura, você acordará numa manhã um pouco abafada, de temperatura mole e indulgente; e em algum momento, eu sei, algum deles, podendo ser um qualquer; esfregar os olhos (os olhos fechados sempre perigam), olhar para a mão enquanto pega a xícara, sentar a manhã pesada à mesa, abrir a porta de casa (o barulho das chaves fará você não querer mais retornar); haverá um momento preciso, sempre há, que perceberá que o seu amor morreu. Este momento existe, ninguém nunca o apanha.
E você nem vai saber a que horas eu escrevi isto tudo. E isto é o mais desesperador. Em que dia; se foi manhã ou tarde ou noite; se tinha tempo ou o espancava; se tinha vontade ou bom-humor ou se morria a cada letra disparada. Se fazia sol ou nublava ou se incendiava-se alguma parte da cidade. E, provavelmente, nem terá esta curiosidade que me consome, em saber detalhes (de tamanha importância que preenchem a outra metade da vida). É a morte não sabê-los. E você não faz questão.
Como consegue viver sem espanto?
“Indiferente ao ridículo da frase, desejoso de provocar uma situação dramática, disse-lhe:
- Dentro de três meses teremos gasto o amor.”
Eu sei que em algum momento, de um futuro tão próximo que não enxergo lonjura, você acordará numa manhã um pouco abafada, de temperatura mole e indulgente; e em algum momento, eu sei, algum deles, podendo ser um qualquer; esfregar os olhos (os olhos fechados sempre perigam), olhar para a mão enquanto pega a xícara, sentar a manhã pesada à mesa, abrir a porta de casa (o barulho das chaves fará você não querer mais retornar); haverá um momento preciso, sempre há, que perceberá que o seu amor morreu. Este momento existe, ninguém nunca o apanha.
E você nem vai saber a que horas eu escrevi isto tudo. E isto é o mais desesperador. Em que dia; se foi manhã ou tarde ou noite; se tinha tempo ou o espancava; se tinha vontade ou bom-humor ou se morria a cada letra disparada. Se fazia sol ou nublava ou se incendiava-se alguma parte da cidade. E, provavelmente, nem terá esta curiosidade que me consome, em saber detalhes (de tamanha importância que preenchem a outra metade da vida). É a morte não sabê-los. E você não faz questão.
Como consegue viver sem espanto?
“Indiferente ao ridículo da frase, desejoso de provocar uma situação dramática, disse-lhe:
- Dentro de três meses teremos gasto o amor.”
segunda-feira, 5 de julho de 2010
meio
Eu me vi num livro outro dia. Porque assim, junho é um mês angustiante de frente aos livros - nem sei se os quero, a saúde anda me preocupando mais esse ano; mais do que os livros que causam moléstias formidáveis. Nem sei disso; mas causam os piores pecados. Fome, fleuma, tumores, congestão nasal e angústias. E para isso: naldecon ou letras. Sei não, pílulas me atraem mesmo não tendo afeições para com ficção científica, sei não. E vem junho - com seus términos. Um frio inventado, uma doença somatizada, um caos cerebrino - um junho ante um julho que não se mostra mais complacente, e ainda faz sol. Ontem colei os cacos do pote que havia ao lado da cama - uma consequência de junho. Juntei com cola branca e restaram os relevos das rachaduras que denunciam o junho que passou (lá quando eu estiver a angustiar-me em junhos de próximos anos). Em agosto colarei os cacos do resto da casa (continuações de membros rachados) - as crianças pararão de gritar e voltarão pra escola, em agosto, de repente dá para encontrar meu humor na bagunça dos amontoados de papel e comprar um nervocalm, restaurar as paredes e as louças, chamar o povo de reacionário... Junho acaba comigo. Eu sei, eu sei. Perdão. É a saúde, vês...? Meu fim na esquina. É junho. Eu sei, que bem me vi num dia em um outro livro desses. Me vi num dia outro livro - livro em junho acaba comigo.
domingo, 6 de junho de 2010
Mestre Doutor
Sempre haverá alguém melhor que eu pra isso
e aquilo
sempre haverá, em seu vocabulário corporativo, alguém
lá
mais suado, mais sorriso e auto
promoção
como é que eu ando na vida,
agora, afora e então
eu não sei
pois sempre haverá
o ele fanstasma
lá - na minha frente na
fila - na assassinatura do contrato a papelão
ele- na frente-ele
e mais gente atrás
sou sanduíche frio, daquele de
miga
sumo no meio, de fino, de murcho,
e o aquele da frente sorri tão mais dente
que não há meio, forma, suficiente
de minhas olheiras de
cansaço transparecerem no-meio-de
tanta gente in
coerente
tão mais peça-encaixe pra isso e
‘quilo também,
que não sei como ir em frente
pois
que não graduei meu workaholic MBA.
eu, que não sei atropelar contentes
e aquilo
sempre haverá, em seu vocabulário corporativo, alguém
lá
mais suado, mais sorriso e auto
promoção
como é que eu ando na vida,
agora, afora e então
eu não sei
pois sempre haverá
o ele fanstasma
lá - na minha frente na
fila - na assassinatura do contrato a papelão
ele- na frente-ele
e mais gente atrás
sou sanduíche frio, daquele de
miga
sumo no meio, de fino, de murcho,
e o aquele da frente sorri tão mais dente
que não há meio, forma, suficiente
de minhas olheiras de
cansaço transparecerem no-meio-de
tanta gente in
coerente
tão mais peça-encaixe pra isso e
‘quilo também,
que não sei como ir em frente
pois
que não graduei meu workaholic MBA.
eu, que não sei atropelar contentes
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